São muitos os caminhos da Vida que nos levam ao lugar em que almejaríamos estar, no qual nos sentiríamos bem. Nele estaríamos livres das mazelas e conflitos que normalmente nos acometem. Lá, certamente, não haveria oportunidades para crises depressivas, para dificuldades de relacionamento ou para qualquer espécie de mal estar ou desconforto conosco mesmos ou com alguém.
Os diversos caminhos podem ser trilhados através de filosofias, religiões, seitas ou de uma maneira que não nos submetamos às peias sociais. Porém, qualquer que seja o caminho escolhido, ninguém poderá prescindir de entrar em contato com sua própria individualidade, com seus próprios limites ou com suas dificuldades inerentes ao processo evolutivo. Esse confronto não pode ser transferido a outrem, nem tampouco simplesmente ser entregue a Deus. É um processo inalienável a que todos estamos sujeitos e, apenas por pouco tempo, adiável.
O olhar que temos a respeito do mundo, isto é, nossa visão dele e de como o concebemos e percebemos, é de fundamental importância para que possamos trilhá-lo com relativo êxito. De acordo com essa visão de mundo estaremos mais ou menos suscetíveis aos dificultadores naturais dos processos em que nos envolvemos. Criaremos e solucionaremos problemas de acordo com aquela visão de mundo.
O caminho da iluminação, meta inalcançável numa única existência, não implica tornar-se perfeito, mas descobrir e realizar a personalidade integral, oculta do estreito conhecimento de si mesmo. Pressupõe atravessar obstáculos, enxergar os próprios limites, agindo na Vida para transformar-se a cada momento. Os problemas não são atestados de fracassos, mas oportunidades preciosas de iluminação.
Iluminar-se é tornar-se dotado de luz, que brilha em si mesmo e em sua volta, isto é, que não está escondida, e que portanto extrapola os limites da consciência pessoal. O brilho próprio, inerente a todos, naturalmente atrai a quantos se aproximem. O brilho pessoal, sem que se deseje aparecer, atinge a quem interage com seu portador.
Muitos são os iluminados, porém não são ainda suficientes para atingir os bilhões de outros seres que ainda vivem na escuridão e em busca de espiritualização.
O processo de iluminação requer consciência de transformação, de desenvolvimento da personalidade na direção das qualidades superiores do espírito. É um processo interno com consequências externas.
O caminho na direção da iluminação se assemelha a uma jornada de um herói que anseia encontrar seu tesouro oculto em algum lugar de si mesmo. Contará com auxílios diversos, inclusive espiritual, porém terá que retornar sozinho a fim de instalar, paradoxalmente, o reino interior no mundo externo. Todos temos uma jornada em busca de si mesmo, em realizar sua própria vida, na procura de sua singularidade. Ao cabo da jornada retornamos a um novo início para, como numa espiral, encetar novo destino, ao encontro, desta feita, com Deus.
Para iniciar essa grande viagem interior é preciso primeiramente desfazermo-nos da ilusão de nossa própria inferioridade, pois somos filhos de Deus, e como tais, fadados à felicidade plena. Isso quer dizer que não devemos permitir a ideia de que somos insignificantes perante a Vida.
Não basta descobrir-se, mas ir em busca do que se acredita que poderia ser, caso as circunstâncias fossem outras.
A caminhada do espírito na busca de si mesmo requer otimismo e confiança no sucesso, bem como ausência de receio de estar só, pois o processo sempre se dará com auxílios diversos que, muito embora presentes, nunca tomarão o lugar do indivíduo. Nessa caminhada é preciso ter coragem, disciplina e a certeza de que o processo é pessoal e intransferível. Ninguém crescerá por ninguém.
Outros, durante o processo de ascensão, se apresentarão nas mesmas circunstâncias e deverão merecer nossa ajuda.
Devemos ter compaixão e generosidade para com os outros.
Deve o espírito não esquecer que o conformismo, a inércia e a acomodação surgirão na caminhada, induzindo o desejo de conclusão imediata sem se chegar ao termo do processo. Muitos param no meio sem forças e motivação para irem adiante. É preciso ter determinação. O compromisso com os objetivos que se pretende atingir é fundamental. É desejável a humildade para não se pensar vitorioso antes do tempo. A felicidade de se perceber caminhando e aprendendo com a vida, nos permite sentir amor e paixão pelo que fazemos. É desejável se sentir apaixonado pela Vida, pelas pessoas e por si mesmo.
A criatividade é outra marca durante a caminhada.
Deve-se dar livre curso à inspiração como instrumento de descoberta das saídas dos conflitos inerentes ao processo. O espírito, com a arte, se permite ser um co-criador na Vida.
Mesmo considerando que todo controle pode prejudicar a visão de totalidade, é desejável que não se perca a organização e a ordem durante o processo de caminhada. A consciência não deve estar fora da jornada da alma na direção à iluminação. Deve-se acreditar com um certo poder pessoal para transformar as coisas, pois somos frutos do desejo de Deus, portanto capazes de operar “milagres” na vida. Essa certeza de identidade com o Criador nos confere a sabedoria para discernir entre o que nos convém ou não no processo.
O desapego é exercício essencial na jornada de iluminação. À medida que contactamos com nossa própria criatividade e autonomia, precisamos nos desligar das exigências para com as pessoas e as situações da vida. Os sentimentos de posse decorrentes do medo de sermos abandonados por aqueles aos quais entregamos a responsabilidade de nos fazer felizes, deturpam a natureza das relações afetivas e geram padrões escravizantes. Ao desenvolvermos o desapego, amando com liberdade, poderemos cultivar a alegria de viver em paz.
Somos todos caminhantes ao nos colocarmos em busca da realização interior, motivados pelo desejo de encontrar o significado da própria existência. Nessa estrada inexorável, invariavelmente, nos depararemos com sombras e dragões ameaçadores, representantes de nosso passado (desta e de outras encarnações), dos quais não deveremos fugir ou nos proteger, evitando-os. Eles são sinalizadores de que é chegada a hora de questionar os valores sobre os quais alicerçamos a nossa vida até o momento. A crise é o início da jornada e deveremos estar dispostos a sacrificar certas características pessoais, pois daí virá a reformulação dos aspectos da personalidade que perpetuam as repetições do passado.
As regras áureas das grandes religiões nos têm mostrado roteiros que, se seguidos, certamente nos levarão ao encontro do si mesmo, pois aqueles que se iluminaram, fizeram-no de acordo com elas. São roteiros ao caminhante, cuja seriedade e verdadeiro sentimento de união com Deus o levará ao encontro desejado.
A humanidade caminha em busca de um sentido. Sua determinação e vontade de conhecer, explicar e realizar é obra da necessidade de entender o mistério oculto no si mesmo de cada indivíduo.
Nem sempre as ações de cada pessoa têm coerência com as de outras, pois, muitas vezes, ela não se preocupa com o sentido de totalidade. A organização e direcionamento dos rumos da humanidade pertencem a algo que lhe é superior. A ligação entre as ações humanas não é obra do humano. O que o ser humano é, é produto de seu próprio processo. O que a humanidade é, provém de forças superiores ao ser humano.
O ser humano não é o responsável pela evolução global. Ele a acompanha quase que atrasado. Muitas vezes ele se percebe perdendo o trem da história. A evolução o leva de roldão. Parece, para muitos desavisados, que a evolução que o próprio ser humano engendra na sociedade é responsável por essa onda que o atropela ao crescimento, porém ela é apenas uma pálida representação do processo macro que o envolve. O ser humano realiza uma evolução menor, por força da própria lei de progresso. Tudo evolui para a harmonia, com ou sem o seu desejo. Campos evolutivos são como campos morfogenéticos que movem a realidade, cuja “existência” independe do ser humano. Ele evolui também por força desse campo à sua volta que se desenvolve à sua revelia. Há uma força renovadora como uma espécie de lei de desenvolvimento para a harmonia. Ela conspira independentemente da vontade, contra ou a favor, do indivíduo. Quem é feliz percebe-se envolvido nesse macro processo contribuindo com sua pequena parcela para a paz a sua volta.
Todas as explicações sobre o mundo são obra do ser humano. Ele descreve como o mundo é de acordo com sua linguagem, mas não sabe de que é constituída a sua essência. O ser humano é o segundo criador da natureza. Na medida em que ele se ilumina, vai percebendo melhor a realidade construída por Deus, com sua participação.
O caminho de iluminação é árduo e difícil para quem estabelece como paradigma de vida a matéria e tudo que lhe diga respeito. A percepção da vida espiritual e suas consequências, possibilita tornar a jornada menos penosa e sacrificial. Iluminação no caminho é consciência de eternidade e de presença divina consigo.
São muitos os caminhos e os caminheiros ilustres que nos apontaram o roteiro para alcançar a iluminação. Resta-nos escolher qual deles seguiremos e quando começar.
No processo de ascensão, torna-se imprescindível enxergar nos outros caminhantes como nós, o diamante divino que existe por trás da casca social e coletiva do ego, envoltório bruto que necessita lapidação adequada. Por detrás dele há o Espírito, senhor do processo de crescimento e autor de sua vitória. A jornada longa não é uma via crucis, nem tampouco um mar de rosas; é o caminho traçado por cada um, que lhe dará forma própria, de acordo com seus méritos e seu passado.
Iluminar-se é ter confiança em si mesmo, é viver sem ressentimentos, sem vínculos desnecessários, sem exigências às pessoas. É trilhar, nos próprios passos, a estrada que a Vida lhe oferecer, procurando enxergar outros que lhe possam acompanhar na caminhada luminosa.
É compartilhar a própria vida, colocando-a a serviço de Deus junto à humanidade, em favor de si e do próximo.
Compartilhar o que tem, o que vier a ter e o que lhe seja oferecido. A Vida é um dom de Deus que merece ser dividida com as pessoas a nossa volta. O viver egoísta, isolado em si mesmo, não possibilita a iluminação.
O caminho de iluminação pessoal leva-nos a compreender as verdades possíveis, a falar pelo coração, a entender poeticamente a Vida e a agir com amorosidade. É a paz que tanto almejamos e que ainda não percebemos que se situa tão perto de nós.
A fé não deve levar-nos a pensar que já ultrapassamos as várias fases da vida. Algumas etapas têm que ser vividas a fim de alcançarmos certos valores necessários ao espírito feliz. Para entrar no caminho de iluminação não basta a fé, é preciso entrar em contato com a nossa natureza material, bem como viver os processos inerentes a ela.
Iluminar-se é estar resolvido nas várias dimensões da Vida. É aprender a lidar com o que efetivamente não se tem, isto é, com a ausência de tudo, mesmo se tendo alguma coisa, pois nada pertence ao ser humano que não esteja nele mesmo, que não seja ele mesmo.
É preciso objetivar, isto é, ter objetivos na vida além do desejo de solucionar os problemas comuns. Não se determinar para uma única tarefa na vida, mas para a própria Vida como um todo. Buscar finalidades e objetivos para a vida além de resolver conflitos, por mais graves que sejam. Isto é dar um passo a mais na vida para se viver bem e ser feliz.
Livro: Psicologia e Espiritualidade
Adenáuer Marcos Ferraz de Novaes
Associação do Movimento Espiritualista Morimbatá - AMEM