Título: PRINCÍPIOS ESPIRITUAIS SÃO VÁLIDOS PRINCIPALMENTE NAS MINHAS RELAÇÕES COMIGO MESMO
Meu mundo interior é minha prioridade de mudança e campo de aplicação do que aprendo. Princípios espirituais são válidos principalmente se puder aplicá-los primeiramente nas minhas relações comigo mesmo, no trato com minhas questões internas.
Os princípios éticos estruturais do Espiritismo vieram, em parte, do Cristianismo e compreendem um conjunto de paradigmas que compõem o repertório consciente e inconsciente das balizas do comportamento humano. Eles não são regras de conduta, mas estruturas sinalizadoras das leis da Vida. As palavras que servem para explicá-los não são capazes de fazê-los compreendidos na sua totalidade. Apenas apresentam à consciência uma forma mais fácil de entendê-los. As palavras que os descrevem são apenas
sinais que devem ser necessariamente apreendidos e levados a suscitar emoções e atitudes. Estas sim são fundamentais ao crescimento do ser humano.
Os princípios morais de qualquer filosofia ou religião são grafados em palavras, ou sinais, e trazem a linguagem de uma época, dirigida especificamente àquela época. Sua essência, traduzível de diferentes formas a cada época e em cada cultura, representa a verdadeira mensagem, cujo alcance pode se restringir aos limites das características impostas pelo conjunto das teorias que lhes apresentam como componentes de seu corpo teórico-doutrinário. Aquela essência só terá sentido quando transcender da compreensão lógica-racional para a vivência e internalização efetiva. Toda mensagem deve ser entendida e relida a cada época e de acordo com os paradigmas inerentes ao meio em que se esteja. Ela deve ter sua compreensão sempre atualizada, conservando-se sua originalidade.
Os princípios espíritas, por sua vez, têm um caráter diferente pelo campo teórico em que são apresentados. O universo de aplicação dos princípios espíritas não se restringe a um povo, a uma região ou a uma cultura. São parte integrante da estrutura de compreensão do próprio indivíduo. Sua limitação decorre da linguagem, que terá de adequar-se, a cada época, para apresentar-se. Mas, necessariamente, terá de sair da consciência racional para a vivência emocional.
Em que pese tentar-se aplicar esses princípios à relação do ser humano com seu semelhante, deve-se perceber que seu campo necessita ampliar-se e atingir a relação do ser humano consigo mesmo. O ser humano precisa aprender em si mesmo que ele não precisa ser lobo de si próprio nem tampouco ser seu próprio inimigo. Por esse motivo o amar a si mesmo, sem auto-idolatria, é fundamental para o amor ao próximo, visto que ele possibilita a percepção, não só da igualdade existente entre as pessoas, como também da singularidade de cada um.
As palavras são produtos de pensamentos, que por sua vez se originam de emoções e instintos, cujo significado nem sempre é alcançável pelo ser humano. Os princípios éticos do Espiritismo devem ser sentidos e não somente compreendidos. Fundamental é chegar-se aos sentimentos latentes nos princípios éticos.
Analisar meus próprios sentimentos, o que sinto durante meus pensamentos, bem como quais os motivos inconscientes do por que eu penso tal ou qual coisa, é um processo de difícil realização, principalmente pela falta de hábito em fazê-lo. Somos educados a valorizar o que pensamos e não o que sentimos.
O meu maior inimigo sou eu mesmo, por não ter o hábito de tentar perceber o que sinto. O que não sei sobre mim mesmo e o que nego de mim mesmo, se valorizados, passam a se constituir nos caminhos para meu autodescobrimento. Por não me ter educado a essa percepção vejo que não é fácil lidar comigo mesmo.
Quando nos preocupamos mais com o que fazemos do que com o que sentimos, tornamo-nos pessoas inconscientes de nós mesmos. Geralmente o ser humano constrói sua vida voltando-se para fora de si mesmo, ocupando-se com a realização externa, esquecendo-se de si mesmo. Confundindo o que faz com o que realmente é.
É comum o ser humano aplicar o que sabe para explicar o mundo e com isso viver bem nele, ou pelo menos tentar. Com isso ele esquece de aplicar seu saber em si mesmo, pois é fundamental conhecer-se para se transformar. As leis de Deus devem ser vistas e revistas no mundo interior tanto quanto as utilizamos no mundo externo.
Após aprender os conceitos espíritas, estudar seus princípios básicos em profundidade e executar suas práticas, faz-se necessário apreender aquilo que decorre de sua vivência. Isso significa incorporar ao seu íntimo mais do que palavras, idéias ou conhecimento, mas principalmente as emoções decorrentes de seu exercício.
A internalização do que decorre da vivência dos princípios espíritas permite ao ser humano perdoar-se, aceitar sua natureza humana, compreender suas próprias dificuldades de alcançar limites projetados, aceitar suas frustrações e continuar tentando crescer a partir de novos referenciais. Essas atitudes deixam de ser difíceis pela percepção que se passa a ter de que atingir o espiritual transita necessariamente pela humanização do próprio indivíduo. É preciso humanizar-se para alcançar a espiritualização.
A meta da espiritualização não pode prescindir da necessária vivência de emoções comuns às criaturas ainda vinculadas ao corpo. É preciso aprender a sentir a saudade construtiva, o ciúme edificante, a direcionar a energia da raiva, a trabalhar a paixão impulsionadora, a querer bem a alguém, a acolher as pessoas, a vivenciar a maternidade independente de ser mãe, a trabalhar a boa inveja, bem como a acolher todos os sentimentos que o ser humano seja capaz de viver, tornando-os nobres e construtivos. O fato de aprender a valorizar sentimentos que antes evitávamos, aos quais sempre atribuímos caráter negativo, não significa exteriorizá-los de forma prejudicial. Identificá-los e trabalhá-los, aproveitando-lhes a energia característica, significa crescimento espiritual. Negar sua existência é anular-se e perder a oportunidade de desenvolver-se com eles, ficando à mercê das conseqüências inerentes à falta de hábito em entrar em contato com os motivos geradores que lhes deram origem.
O processo de espiritualização tem mais sentido se vivido pelo espírito quando reencarnado do que quando desencarnado. A capacidade de aprender, quando se está limitado ao corpo é maior do que sem ele. A limitação imposta pela matéria possibilita ao espírito desenvolver habilidades sob regime de contenção. Quando se contém uma habilidade se desenvolve outra.
Perceber seu próprio processo bem como as aquisições reais do espírito já internalizadas, nem sempre é possível ao ser humano. É necessário investir na própria vida interior para habilitar-se às incursões da alma. O ser humano, acostumado à vida exterior, quando realiza seus mergulhos internos através das meditações, nem sempre consegue penetrar nos eventos passados, e quando o faz, traz suas marcas profundas e dolorosas. Para atingir sua própria personalidade integral, ele terá que vencer obstáculos erigidos ao longo de suas encarnações.
É dever de quem se candidata à evolução espiritual e pretende alcançar a iluminação, aplicar em si mesmo, com a maior honestidade possível, tudo aquilo que sente, pensa e age em relação ao mundo externo. Ser honesto consigo mesmo, ser exigente e flexível interiormente, ser amoroso e complacente na sua intimidade, significa possibilidade de viver bem e ser feliz.
Capítulo do Livro Psicologia e Espiritualidade
Adenáuer Marcos Ferraz de Novaes
Associação do Movimento Espiritualista Morimbatá - AMEM