Obviamente, a educação tem um papel fundamental na formação da personalidade infantil e também no processo de expansão da consciência humana. Através da educação, é possível facilitar ou dificultar esse processo. Por isso precisamos dar a devida importância para esse tema. Na minha visão, somente através da educação nós poderemos fomentar a transformação necessária para salvar nosso planeta, que se encontra em processo de degradação. Mas para que uma mudança significativa aconteça no mundo, precisamos realizar uma grande reforma na educação, e essa reforma começa por nós, adultos.
O processo de educação das nossas crianças deve começar através da reeducação do nosso eu inferior. Somente assim teremos de fato algo para dar. Caso contrário, isso que chamamos de educação continuará sendo somente uma reação ao passado, somente uma projeção das nossas dores infantis. Projetamos nossas mazelas nas crianças e queremos fazer delas aquilo que acreditamos ser o melhor. Mas nem sempre temos razão quanto ao que é o melhor, justamente porque trata-se de uma crença, ou seja, de uma imagem rígida a respeito de algo. A crença é construída a partir de situações negativas do passado. Isso significa que algo deu errado, alguma coisa te machucou, então você passou a acreditar que a vida é sempre assim. Trata-se de uma generalização.
Portanto, temos um grande desafio pela frente. Precisamos curar nossas mazelas para que possamos educar nossos filhos adequadamente. Porque, se continuarmos agindo com base nos nossos traumas do passado, permaneceremos sabotando o desenvolvimento das nossas crianças e desviando as do seu caminho natural, do seu propósito de vida. Isso será possível somente se estivermos dispostos a assumir nossa responsabilidade e a conhecer a nós mesmos. Porque, na medida em que nos conhecemos, vamos nos libertando de nossas crenças limitantes e da ideia de que somos vítimas e nos tornamos capazes de apoiar o desenvolvimento sustentável da personalidade infantil, o que implica em não projetar nossas misérias nas crianças e dar força para que sua visão e sua sabedoria sejam reveladas para o mundo.
Precisamos abrir mão da necessidade de ter nossas expectativas e carências supridas através dos nossos filhos, pois essa é a raiz do problema. Sei que não é uma tarefa fácil, pois é muito difícil não repetir padrões e não impor pontos de vista para a criança. Não conhecendo a si mesmo e não tendo consciência das suas próprias carências e limitações, inevitavelmente você vai querer formatar a criança de acordo com suas expectativas. Se você foi muito machucado, desapoderado e humilhado, é muito provável que, estando numa posição de poder e autoridade perante a criança, você se perca e queira abusar desse falso poder. Dessa maneira, você acaba reeditando o seu passado no momento presente, o que significa que você repete a sua história através da criança e transmite para ela as suas misérias.
A projeção das nossas carências e condicionamentos nas nossas crianças é uma das bases que sustentam a miséria humana. Dessa forma, temos sido canais de um poder destrutivo que age promovendo o esquecimento do propósito maior da vida. A criança tenta ser feliz da maneira como ensinamos que deve ser, mas ela nunca se sente encaixada, nunca se sente realmente confortável. Desde cedo, a criança é tomada pelo esquecimento e passa a carregar um vazio existencial do qual, até certo estágio, não tem consciência.
Perdida no esquecimento, ela acredita que esse vazio (do qual inconscientemente está sempre tentando fugir) será preenchido com algo que está fora dela. Crê que a sua felicidade depende de circunstâncias externas, ou seja, de outras pessoas ou de bens materiais. Assim, acaba desenvolvendo a crença de que a felicidade pode ser comprada. Acredita que, se tiver bastante dinheiro, além de comprar tudo o que deseja, poderá dominar o outro e fazer com que ele faça e dê aquilo que espera.
Nosso sistema educacional está baseado nisto: ensinar a criança a ganhar dinheiro e a ter poder, justamente porque, na fundação da nossa sociedade, existe essa crença de que dinheiro é sinônimo de felicidade. Nada pode ser mais ilusório do que isso. E é por causa dessa grande ilusão que a depressão se tornou a doença do século e que nos tornamos dependentes de remédios para dormir e atenuar a ansiedade. Estamos criando uma humanidade dependente de terapia. E mesmo com terapia, não há garantia de que resolveremos o problema. Tem gente que faz terapia a vida inteira e continua igual. Muitos conseguem viver melhor, se aceitar mais e dar alguns passos no caminho do autoconhecimento, mas só através da espiritualidade é possível romper com esse círculo vicioso. Processos terapêuticos só podem trazer resultados positivos no que diz respeito à cura das nossas raízes (onde a doença está instalada) se puderem abordar e tratar o ser humano como um todo, incluindo sua dimensão espiritual.
Esse cenário precisa ser modificado. Caso contrário, seguiremos procriando miséria. Cabe a nós, adultos, nos libertarmos dessas crenças limitantes e iniciarmos a busca da felicidade no lugar certo: dentro de nós. Esse é o único lugar em que a felicidade perene pode ser encontrada. Enquanto continuarmos buscando fora, projetando nossas carências no outro, exigindo que ele faça aquilo que queremos que ele faça; enquanto não curarmos nossas feridas infantis através do autoconhecimento, seguiremos procriando ignorância através dos nossos filhos.
Muitas vezes você acha que está amando o seu filho, mas está apenas tentando resolver o seu próprio problema. Na verdade, você está tentando se realizar através dele. Ao obrigar a criança a fazer do seu jeito, você acaba desviando-a do caminho dela. E qualquer caminho que não seja o da alma é um mau caminho, porque ela estará se afastando do dharma (propósito).
Se pudéssemos evitar que essas crenças fossem instaladas na infância, tudo seria diferente. Na minha visão, isso seria possível se o autoconhecimento e a espiritualidade se tornassem parte do ensino fundamental. Enquanto adultos conscientes, o nosso trabalho é resgatar a inocência perdida, a espontaneidade e a pureza da criança em nós, pois assim poderemos resgatar também a alegria e a leveza de viver. Mas enquanto isso não acontece, que possamos zelar para que as nossas crianças não percam a inocência e a espontaneidade. Esse é um projeto para séculos, mas precisamos começar agora. Precisamos fazer com que uma educação baseada em valores humanos e espirituais se torne política pública. E, além disso, é necessário que os amantes se tornem realmente conscientes do significado de uma família, do significado de trazer uma criança para este mundo. Esse é um dos aspectos da nossa missão neste planeta, porque isso faz parte do processo da expansão da consciência humana.
Se olharmos mais profundamente para essa questão, veremos, inclusive, que é preciso refletir sobre a nossa necessidade compulsiva de gerar filhos, pois ela também nasce de crenças e condicionamentos. Percebo que esse assunto é quase um tabu na nossa sociedade, mas trata-se de um tema de grande importância, que precisa ser amplamente abordado e encarado de frente. Porque, ao colocar um filho neste mundo, você tem a responsabilidade de ajudar no desenvolvimento espiritual dessa alma ou pelo menos precisa aprender a não sabotá-la.
Essas são questões muito importantes, mas precisaríamos de um outro livro para tratar delas. Por enquanto, quero apenas deixar algumas perguntas para aqueles que estão querendo ter filhos:
Quem em você quer ter um filho e para quê?
De onde vem essa vontade?
Vem da necessidade de cumprir um programa social, de suprir uma carência ou é um comando do coração?
Capítulo retirado do Livro “PROPÓSITO – A Coragem de Ser quem Somos”
(Sri Prem Baba)
Associação do Movimento Espiritualista Morimbatá - AMEM