Tenho constatado que um dos maiores desafios da jornada humana é sentir, ou melhor: lidar com aquilo que se sente. Vejo que somente a disposição para enfrentar as dores existenciais que nos habitam pode curar a humanidade, pois são essas dores que geram a nossa insanidade. Não é insano matarmos uns aos outros? Não é insano destruirmos nosso planeta? Não é insano poluir os rios? Não é insano poluir a Terra? Não é insano destruirmos a nossa fonte de vida? Na
minha visão tudo isso é insano, mas trata-se de uma insanidade produzida pela dor inconsciente que carregamos.
De tão desafiador que é sentir e lidar com os sentimentos, acabamos nos colocando dentro de uma armadura. Criamos um muro entre nós e o mundo e nos tornamos insensíveis, porque esse muro nos impede de sentir. E nós fazemos isso porque, em algum nível, existe a ideia de que sentir é muito perigoso. Essa ideia existe por causa de uma memória que carregamos. Como já vimos, em algum momento da nossa biografia passamos por experiências dolorosas e difíceis de suportar e com isso precisamos amortecer a dor. Então nós erguemos um muro que é construído com muitos sentimentos: orgulho, medo, vingança, ódio, racionalização e diversos outros mecanismos de defesa. Entretanto, para seguirmos em frente na jornada, esse muro terá que ser destruído. Em algum momento, precisaremos retirar a armadura e ficar vulneráveis. Somente assim será possível aprender a lidar com os sentimentos.
Esse aprendizado é uma passagem necessária para o processo evolutivo, até porque você só pode sustentar o êxtase se conseguir suportar a tristeza, pois o canal do sentir é o mesmo. Tanto a tristeza quanto o êxtase passam pelo mesmo
canal. Portanto, ao bloquear os sentimentos para não sentir a dor, você também impede a possibilidade de sentir prazer.
Certa vez alguém disse que emoções são como cavalos selvagens. Elas são indomáveis, e os sentimentos são como corredeiras de água que você não controla e não sabe para onde irão levá-lo. Mas, em algum momento, você terá que lidar com isso. Precisará aprender a enfrentar a vulnerabilidade e a incerteza que os sentimentos trazem. Ao mesmo tempo em que os sentimentos podem levá-lo a visitar os calabouços do inconsciente e ativar pavores, desesperos e angústias que não se podem traduzir em palavras, eles também podem conduzi-lo a experiências maravilhosas e fazê-lo chorar de alegria e gratidão.
Lidar com os sentimentos negados é uma passagem inevitável. Se você construiu um muro bem alicerçado, isso significa que há dores existenciais tão profundas que fazem com que você tenha medo de sentir a dor do aniquilamento. E alguns sentimentos são realmente mortificantes, porém esse muro terá de ser derrubado, e isso só acontecerá quando você se dispuser a investigar; quando, de forma consciente, decidir enxergar o que está por trás dele.
Para enfrentar a dor e lidar com os sentimentos negados, é preciso ter um tanto de humildade e de coragem. Humildade para admitir que realmente as coisas não foram fáceis, mas faça isso sem redimensionar a dor, ou seja, sem fantasiar e cair no vitimismo. É preciso também ter humildade para reconhecer que a rosa tem espinhos. É necessário ter coragem para encarar tais dores, o que significa olhar para o espinho e retirá-lo. Mas retirar o espinho causa dor, especialmente se ele está acomodado na carne. E o fato de estar acomodado não significa que não dói. Pelo contrário: deve estar infeccionado, criando uma gangrena que você não sente, por estar amortecido. Então, no primeiro momento, mexer no espinho vai doer mais do que tê-lo encravado na carne.
Olhar para os espinhos significa entrar em contato com memórias e traumas que você sempre quis esquecer. Querer esquecer ou querer que algo não exista não é o suficiente. Você quer se libertar do passado, mas ele continua lá. Só é
possível libertar-se do passado chegando a um acordo com ele.
Identificar nossos distúrbios, preocupações e loucuras é o primeiro passo. No entanto, entre a identificação da doença e a cura há um caminho por vezes longo. Por isso é preciso estar comprometido com a cura – isso é realmente valioso. Nesse mundo, é raro encontrar pessoas que tenham essa lucidez.
Portanto, para ser você mesmo, além de humildade, é necessário ter comprometimento, coragem e firmeza para se libertar das defesas e desconstruir os muros, as armaduras e as máscaras. Para isso, você precisará tornar-se vulnerável. Só é possível manifestar o propósito da alma estando desarmado, por isso eu digo que o fato de você identificar que está se defendendo, que está brigando, que está armado é uma medida de sucesso. Só o processo de tomar consciência disso já tem o poder de despertá-lo. Quando você percebe algo que não estava percebendo, sua consciência já está expandida.
Por isso tenho dito que a maior conquista da humanidade não diz respeito aos avanços científicos, mas sim à capacidade de identificar o que foi negado e de aprender a lidar com a natureza sombria. A capacidade de tratar a dor. Mesmo com todo o desenvolvimento tecnológico e o acúmulo de dinheiro, ainda não aprendemos a lidar com a raiva, o ciúme, a inveja, a frustração... Portanto, considero algo realmente valoroso para o ser humano aprender a enfrentar esses conteúdos, ou seja, as dores existenciais que o habitam. Devido à inabilidade que temos para trabalhar com isso, simplesmente tiramos esses sentimentos do nosso campo de visão, amortecemos e desenvolvemos máscaras.
Isso não quer dizer que sou contra o avanço tecnológico e científico. Muito pelo contrário. Sou um usuário e um pesquisador de novas soluções, desde que elas estejam alinhadas com o desenvolvimento sustentável do ser humano e sirvam ao propósito maior. É fato que nos desenvolvemos muito tecnologicamente nas últimas três décadas. Nunca houve tanto dinheiro no mundo. No entanto, continuamos matando uns aos outros. Não há nada de errado com a tecnologia, com as maravilhas da arquitetura, da arte, da engenharia. Não há nada de errado com o dinheiro. A questão é o uso que estamos fazendo disso.
Vejo que a humanidade ficou parada neste ponto do estudo: ao mesmo tempo em que existe a necessidade de aprender e crescer através do sofrimento, há também uma incapacidade de lidar com a dor. Esse paradoxo tem gerado um sofrimento desnecessário, por isso eu digo que se há algo de real valor nesse mundo é o autoconhecimento. Esse é o caminho.
Capítulo retirado do Livro "PROPÓSITO" A coragem de ser quem somos
Sri Prem Baba
Associação do Movimento Espiritualista Morimbatá - AMEM