ARTIGOS DOUTRINÁRIOS

Título: VOCÊ NÃO É A SUA MENTE

LIBERTE-SE DA SUA MENTE

O que quer dizer exatamente por «observar o pensador»?

Se uma pessoa for ao médico e disser «Ouço uma voz dentro da minha cabeça», o mais certo é que essa pessoa seja remetida para um psiquiatra. O fato é que, de um modo muito semelhante, praticamente toda a gente ouve constantemente uma voz, ou várias vozes, dentro da cabeça: é o processo do pensamento involuntário que você tem o poder de travar, embora não o saiba. Monólogos ou diálogos contínuos.
Provavelmente já se cruzou na rua com pessoas "malucas" que falam e resmungam incessantemente consigo próprias. Pois bem, isso não é muito diferente daquilo que você e todas as outras pessoas "normais" fazem, só que não o fazem em voz alta. A voz comenta, especula, critica, compara, queixa-se, gosta, não gosta, e por aí fora.
A voz não é necessariamente relevante para a situação em que você se encontra no momento; provavelmente, ela estará a reviver o passado recente ou distante, a ensaiar ou a imaginar possíveis situações futuras. Aqui, ela muitas vezes imagina que as coisas irão correr mal ou terão resultados negativos; chama-se a isto preocupação. Por vezes, essa pista sonora é acompanhada por imagens visuais ou "filmes mentais". Mesmo que a voz seja relevante para a situação presente, ela interpretará essa situação em termos de passado. É assim porque a voz pertence à sua mente condicionada, que é o resultado de todo o seu historial passado, assim como do contexto mental e cultural colectivo que você herdou. Portanto, você vê e julga o presente através dos olhos do passado e obtém dele uma visão totalmente distorcida. Não é raro que a voz seja o pior inimigo de uma pessoa. Muitas pessoas vivem com um carrasco na cabeça que as ataca e castiga constantemente e lhes suga a energia vital. Ela é causadora de uma tremenda angústia e infelicidade, assim como de doenças.
Mas há boas notícias: você pode libertar-se da sua mente. É a única libertação verdadeira. Poderá começar a dar o primeiro passo já neste momento. Comece por ouvir a voz dentro da sua cabeça o maior número de vezes que puder. Preste particular atenção a quaisquer padrões de pensamento repetitivos, esses velhos discos riscados que provavelmente estão a tocar na sua cabeça há muitos anos. É isso que eu quero dizer com "observar o pensador", que é uma outra maneira de dizer: escute a voz dentro da sua cabeça, esteja lá como testemunha presencial. Ao escutar essa voz, escute-a com imparcialidade. O mesmo é dizer, não julgue. Não critique nem condene o que ouve, porque fazê-lo significaria deixar a mesma voz entrar novamente pela porta de trás. Depressa compreenderá: lá está a voz, e aqui estou eu a ouvi-la, a observá-la. Esta consciência de que eu estou, esta sensação da sua própria presença, não é um pensamento. Tem origem para além da mente.

Por isso, quando escutar um pensamento, esteja ciente não só do pensamento, mas também de si próprio como testemunha do pensamento. Surge então uma nova dimensão de consciência. E, enquanto ouve o pensamento, sentirá uma presença consciente – a do seu eu mais profundo – por trás do pensamento, subjacente a ele. O pensamento perderá então o poder que tem sobre si e rapidamente abrandará, porque você deixou de estimular a mente através da sua identificação com ela. É o começo do fim do pensar involuntário e compulsivo.
Quando um pensamento abranda, você sente uma descontinuidade no caudal mental – um hiato de ausência de mente. Ao princípio, os hiatos serão curtos, talvez de alguns segundos, mas gradualmente tornar-se-ão mais prolongados. Quando esses hiatos ocorrem, você sente uma certa quietude e uma certa paz dentro de si. É o início do seu estado natural de união sentida com o Ser, a qual é geralmente ofuscada pela mente. Com a prática, a sensação de quietude e de paz será mais profunda. De facto, a sua profundidade não tem fim. Sentirá igualmente uma subtil emanação de alegria a surgir bem do fundo de si: a alegria do Ser.
Não é um estado que se pareça com um êxtase. De maneira nenhuma. Aqui não há perda da consciência. Antes pelo contrário. Se o preço da paz interior fosse uma diminuição da sua consciência e o preço da quietude uma falta de vitalidade e de vivacidade, então não valeria a pena ter essa paz e essa quietude. Nesse estado de ligação interior, você encontra-se muito mais atento, muito mais desperto do que no estado de identificação com a mente. Está plenamente presente. Esse estado eleva igualmente a frequência vibratória do campo de energia que dá vida ao corpo físico.
À medida que entra mais profundamente nesse reino de ausência de mente, como por vezes se diz no Oriente, atingirá o estado da pura consciência. Nesse estado, sentirá a sua própria presença com tal intensidade e com tal alegria que, por comparação, todo o pensar, todas as emoções, o seu corpo físico, assim como todo o mundo exterior, se tornarão relativamente insignificantes. E apesar disso, não é um estado egoísta, mas antes um estado altruísta. Transporta-o para além do que anteriormente considerava ser o "seu eu". Essa presença é a essência de quem você é, mas ao mesmo tempo é inconcebivelmente maior do que você. O que eu estou a tentar transmitir aqui poderá parecer paradoxal ou até mesmo contraditório, mas não existe nenhuma outra maneira de eu me exprimir.

Em vez de "observar o pensador", também poderá criar um hiato no caudal da mente dirigindo simplesmente o centro da sua atenção para o Agora. Basta que esteja intensamente consciente do momento presente. É uma coisa que se faz com profunda satisfação. Desta maneira, você arrasta a sua consciência para longe da atividade mental e cria um hiato de ausência de mente em que permanece extremamente atento e consciente, mas em que não pensa. É essa a essência da meditação.
Na sua vida diária, poderá praticar isto tomando uma qualquer atividade de rotina, que normalmente não passe de um meio para alcançar um fim, e dando-lhe toda a sua atenção de forma que ela se torne um fim em si. Por exemplo, cada vez que você subir e descer escadas, em casa ou no local de trabalho, preste muita atenção a cada passo, a cada movimento e até mesmo à sua respiração. Esteja totalmente presente. Ou, ao lavar as mãos, preste atenção a todas as percepções sensoriais associadas a essa atividade: o ruído e a sensação da água, o movimento das mãos, o aroma do sabonete, etc. Ou ainda, quando entrar no seu carro, depois de fechar a porta, faça uma pausa de alguns segundos e observe o fluir da sua respiração. Tome consciência da sensação de presença silenciosa, mas poderosa, que daí resulta. Existe um critério certeiro pelo qual poderá avaliar o seu sucesso com este exercício: o grau de paz que sentirá interiormente.

Portanto, o passo mais vital na sua jornada rumo à iluminação é este: aprenda a deixar de se identificar com a mente. Sempre que criar um hiato no caudal da mente, a luz da sua consciência tornar-se-á mais forte.
Talvez um dia dê consigo a sorrir perante a voz na sua cabeça, como sorriria perante as traquinices de uma criança. Significa isso que você deixou de levar o conteúdo da sua mente tão a sério, uma vez que a sua sensação de identidade não depende dela.


ILUMINAÇÃO: ELEVAR-SE ACIMA DO PENSAMENTO

Pensar não é essencial para sobrevivermos neste mundo?

A sua mente é um instrumento, uma ferramenta. Existe para ser usada numa tarefa específica e, quando essa tarefa termina, põe-se de parte. Assim sendo, eu diria que cerca de 80 a 90 por cento do pensamento da maioria das pessoas é não só repetitivo e inútil, mas, devido à sua natureza disfuncional e muitas vezes negativa, é também muitas vezes prejudicial. Observe a sua mente e verá que isto é verdade. Provoca uma perda considerável de energia vital.
Esta espécie de pensamento compulsivo é, na realidade, um vício. O que é que caracteriza um vício? Muito simplesmente isto: você deixa de sentir que tem a opção de parar. Parece ser mais forte do que você. E dá-lhe igualmente uma falsa sensação de prazer, prazer esse que invariavelmente se transforma em dor.

Por que motivo seríamos nós viciados em pensar?

Porque você se identifica com o pensamento, o que significa que obtém a sua sensação de identidade a partir do conteúdo e da atividade da sua mente. Porque você acredita que deixaria de existir se deixasse de pensar. Ao crescer, você forma uma imagem mental da pessoa que é com base nos seus condicionamentos pessoais e culturais. Podemos dar o nome de ego a esse eu fantasma. Consiste na atividade da mente e só pode continuar a funcionar através do pensar constante. O termo ego significa diferentes coisas para diferentes pessoas, mas quando eu o uso aqui significa um falso eu, criado por uma identificação inconsciente com a mente.
Para o ego, o momento presente praticamente não existe. Apenas o passado e o futuro são considerados importantes. Esta total inversão da verdade explica o facto de a mente ser tão disfuncional quando está a funcionar como ego. O ego preocupa-se constantemente em manter vivo o passado, porque, sem ele, quem seria você? Projeta-se constantemente no futuro para garantir a continuidade da sua sobrevivência e para procurar aí algum tipo de libertação ou de satisfação. Ele diz: "Um dia, quando isto, ou aquilo, acontecer, eu vou sentir-me bem, feliz, em paz." E mesmo quando o ego parece preocupar-se com o presente, não é o presente que ele vê: distorce-o completamente porque o vê através dos olhos do passado. Ou então reduz o presente a um meio para alcançar um fim, fim esse que fica sempre no futuro que a mente projeta. Observe a sua mente e verá que é assim que funciona.
O momento presente possui a chave para a libertação. Mas você não poderá descobrir o momento presente enquanto você for a sua mente.

Não quero perder a minha capacidade de analisar e discriminar. Não me importaria de aprender a pensar de maneira mais clara, mais concentrada, mas não quero perder a minha mente. A capacidade de pensar é a coisa mais preciosa que possuímos. Sem ela, seríamos apenas uma outra espécie animal.

A predominância da mente não passa de um patamar na evolução da consciência.
Precisamos de chegar ao patamar seguinte agora, urgentemente; de outro modo, seremos destruídos pela mente, que se terá transformado num monstro. O pensamento e a consciência não são sinônimos. O pensamento não passa de um pequeno aspecto da consciência. O pensamento não pode existir sem a consciência, mas a consciência não precisa do pensamento.
A iluminação significa elevar-se acima do pensamento e não descer a um nível abaixo do pensamento, ao nível de um animal ou de uma planta. No estado de iluminação, você continua a utilizar a sua mente e a pensar sempre que necessário, mas fá-lo-á de uma maneira muito mais concentrada e eficiente do que anteriormente. Utilizá-la-á principalmente para fins práticos, mas ficará livre do diálogo interior involuntário e conhecerá a quietude, interior. Quando usar a sua mente, e particularmente quando for necessária uma solução criativa, você oscilará frequentemente entre o pensamento e a quietude entre a mente e a ausência de mente. A ausência de mente é a consciência sem o pensamento. Só dessa maneira é possível pensar-se criativamente, porque só dessa maneira o pensamento terá verdadeiramente poder. O pensamento por si só, quando deixa de estar ligado ao reino muito mais vasto da consciência, torna-se rapidamente estéril, insensato e destrutivo.
A mente é essencialmente uma máquina de sobrevivência. Atacar e defender-se de outras mentes, reunir, armazenar e analisar informações – é nisso que ela é boa, mas não é de maneira nenhuma criativa. Todos os verdadeiros artistas, quer o saibam quer não, criam com base na ausência de mente, na quietude interior. Só posteriormente é que a mente dá forma ao impulso criativo ou à inspiração. Até os grandes cientistas dizem que os seus sucessos criativos aconteceram num momento de quietude mental. O resultado surpreendente de um inquérito, feito a nível nacional junto dos mais eminentes cientistas americanos, entre os quais Einstein, tendo em vista descobrir os respectivos métodos de trabalho, foi o de que o pensar "desempenha unicamente um papel secundário na fase breve, mas decisiva, do ato criativo em si." Por isso, eu diria que a simples razão pela qual a maioria dos cientistas não é criativa não é por não saber pensar, mas por não saber como parar de pensar!
Não foi através da mente, através do pensamento, que foi criado e é mantido o milagre que é a vida na Terra ou no seu corpo. Existe claramente uma inteligência a reger este processo que é de longe maior do que a mente. Como pode uma única célula humana, que de largura mede um milionésimo de polegada, conter dentro do seu ADN instruções que dariam para encher 1000 livros de 600 páginas cada um? Quanto mais aprendemos sobre o funcionamento do corpo, mais compreendemos quão vasta é a inteligência que o rege e quão limitado é o nosso conhecimento. Quando a mente se liga novamente a essa inteligência, transforma-se numa ferramenta maravilhosa. Serve então algo maior do que ela.

EMOÇÃO: A REAÇÃO DO CORPO À SUA MENTE

E quanto às emoções? Eu sou mais influenciado pelas minhas emoções do que pela minha mente.

A mente, tal como eu a concebo, não consiste apenas no pensamento. Inclui as emoções assim como todos os padrões de reações mentais e emocionais inconscientes. A emoção nasce no local onde a mente e o corpo se encontram. É a reação do corpo à mente – ou poderia dizer-se, um reflexo da mente no corpo. Por exemplo, um pensamento hostil criará no corpo uma acumulação de energia a que damos o nome de ira. O corpo prepara-se para lutar. A ideia de que está a ser atacado, física ou psicologicamente, leva o corpo a contrair-se, e é este o lado físico daquilo a que chamamos medo. Várias pesquisas demonstraram que as emoções fortes podem provocar alterações na estrutura bioquímica do corpo. Essas alterações bioquímicas representam o aspecto físico ou material da emoção. É evidente que, regra geral, você não tem consciência de todos os seus padrões de pensamento e, muitas vezes, é apenas pela observação das suas emoções que pode tomar conhecimento deles.
Quanto mais você se identificar com o seu pensamento, com os seus gostos e aversões, críticas e interpretações, ou seja, quanto menos presente estiver como consciência observadora, mais forte será a carga da energia emocional, quer tenha consciência dela ou não. Se você não conseguir sentir as suas emoções, se estiver desligado delas, acabará por as experimentar a um nível puramente físico, na forma de um problema ou de um sintoma físico. Tem-se escrito muito sobre este assunto nos últimos anos, pelo que não há necessidade de o abordarmos agora. Um padrão emocional inconsciente forte pode mesmo manifestar-se como um acontecimento externo que parece só lhe acontecer a si. Por exemplo, tenho notado que as pessoas com muita raiva dentro de si, sem dela terem consciência e sem a manifestarem, são mais atreitas a serem atacadas verbal e até mesmo fisicamente, e muitas vezes sem razão aparente, por outras pessoas iradas. As primeiras emitem uma forte emanação de ira que determinadas pessoas captam subliminarmente e que provoca nestas últimas a explosão da sua própria ira latente.
Se você tiver dificuldade em sentir as suas emoções, comece por concentrar a sua atenção no campo de energia interior do corpo. Sinta o seu corpo a partir do interior. Isso colocá-lo-á também em contacto com as suas emoções. Analisaremos este assunto em pormenor mais adiante.

Diz que uma emoção é um reflexo da mente no corpo. Mas por vezes existe um conflito entre as duns: a mente diz "não" enquanto que a emoção diz "sim", ou vice-versa.

Se quiser realmente conhecer a sua mente, o corpo dar-lhe-á sempre um reflexo fiel dela, portanto observe atentamente a emoção, ou antes, sinta-a no seu corpo. Se entre eles houver um conflito aparente, o pensamento será a mentira e a emoção será a verdade. Não a verdade última de quem você é, mas a verdade relativa do seu estado de espírito nesse momento.
Não há dúvida de que são vulgares os conflitos entre pensamentos superficiais e processos mentais inconscientes. Talvez você não consiga ainda reconhecer a atividade da sua mente como pensamentos, mas ela refletir-se-á sempre no seu corpo como uma emoção, e esta última você poderá reconhecer. Observar atentamente uma emoção desta maneira é basicamente o mesmo que ouvir ou observar um pensamento, como descrevi atrás. A única diferença é que, enquanto que o pensamento reside na sua cabeça, a emoção tem uma forte componente física e por isso é sentida principalmente no corpo. Poderá então permitir que a emoção se manifeste sem se deixar controlar por ela. Você deixará de ser a emoção; passará a ser o observador, a presença observadora. Se você fizer isto, toda a inconsciência que houver em si será trazida para a luz da consciência.

Portanto, observar as nossas emoções é ião importante como observar os nossos pensamentos?

Sim. Habitue-se a perguntar a si próprio: que estará a acontecer dentro de mim neste momento? Esta pergunta indica-lhe qual o caminho a seguir. Mas não analise, limite-se a observar atentamente. Concentre a sua atenção no seu íntimo. Sinta a energia da emoção. Se não houver emoção presente, leve a sua atenção ainda mais fundo para o campo de energia interior do seu corpo. É a entrada para o Ser.

Geralmente, uma emoção representa um padrão de pensamento amplificado ao qual foi incutida energia e, por causa da sua carga energética, muitas vezes irresistível, ao princípio não será fácil estar-se suficientemente presente para poder observá-la com atenção. Ela quer dominá-lo e geralmente consegue-o – a menos que você esteja verdadeiramente presente. Se for forçado a identificar-se inconscientemente com a emoção, por não estar suficiente presente, o que é normal, a emoção torna-se temporariamente o seu eu. Muitas vezes estabelece-se um círculo vicioso entre o pensamento e a emoção: alimentam-se mutuamente. O padrão de pensamento cria um reflexo ampliado de si próprio na forma de uma emoção, e a frequência vibratória da emoção continua a alimentar o padrão de pensamento original. Quando você se fixa mentalmente numa situação, num acontecimento ou numa pessoa que é a causa perceptível da emoção, o pensamento incute energia à emoção, que por sua vez incute energia ao padrão de pensamento, e assim por diante.
Basicamente, todas as emoções são variações de uma emoção primordial e indiferenciada, que tem a sua origem na perda do conhecimento daquilo que você é para além de um nome e de uma forma. Devido à sua natureza indiferenciada, é difícil encontrar um nome que descreva essa emoção com exatidão. A palavra "medo" é bastante aproximada, mas para além de uma sensação contínua de ameaça, ela também inclui uma sensação profunda de abandono e de imperfeição. Talvez seja melhor usar um termo que seja tão indiferenciado quanto essa emoção básica e chamar-lhe simplesmente "dor". Uma das principais tarefas da mente é lutar contra essa dor emocional ou fazê-la desaparecer, essa é uma das razões para a sua atividade incessante, mas tudo o que consegue fazer é disfarçá-la temporariamente. De facto, quanto mais a mente luta para se ver livre da dor, maior é a dor. A mente nunca consegue encontrar a solução, nem se pode dar ao luxo de permitir que você descubra essa solução, porque ela própria é uma parte intrínseca do "problema". Imagine um chefe de polícia a tentar encontrar um pirômano quando esse pirômano é o próprio chefe de polícia. Você não se libertará da dor a não ser que deixe de ir buscar à mente a sensação que tem de si próprio, ou seja, de a ir buscar ao ego. A mente será então destituída da posição de poder que ocupa e o Ser revelar-se-á a si próprio como sendo a sua própria natureza.
Sim, eu sei o que me vai perguntar a seguir.

Ia perguntar-lhe: e no que toca às emoções positivas, como por exemplo o amor e a alegria?

São inseparáveis do nosso estado natural de ligação íntima com o Ser. É possível obterem-se vislumbres de amor c de alegria, ou de breves momentos de profunda paz, sempre que ocorre um hiato no caudal do pensamento. Para um grande número de pessoas, esse hiato ocorre raramente e apenas acidentalmente, quando a mente fica "sem fala", o que por vezes é provocado por uma grande beleza, por um esforço físico extremo, ou até mesmo por um grande perigo. De repente, há uma quietude interior. E nessa quietude há uma alegria subtil mas intensa, há amor, há paz.
Geralmente, esses momentos são de curta duração, pois a mente rapidamente retoma a sua barulhenta atividade a que nós chamamos pensar. Amor, alegria e paz não podem desenvolver-se a não ser que você se liberte do domínio da mente. Mas eu não lhes chamaria emoções. Estão para além das emoções, num nível muito mais profundo. Portanto, você precisa de estar plenamente consciente das suas emoções e ser capaz de as sentir antes de poder sentir o que se situa para além delas. Emoção significa literalmente "perturbação". A palavra vem do latim emovere, que significa "deslocar" ou "perturbar".
Amor, alegria e paz são estados profundos do Ser, ou melhor, três aspectos do estado de ligação interior com o Ser. Como tal, não possuem opostos, porque a sua origem está para além da mente. Por outro lado, as emoções fazem parte da mente dualista, pelo que estão sujeitas à lei dos opostos. O que significa simplesmente que não pode haver o bem sem o mal. Por conseguinte, na nossa condição não iluminada, quando ainda nos identificamos com a mente, aquilo a que muitas vezes e erradamente se dá o nome de alegria é o lado do prazer, geralmente de curta duração, do ciclo permanente de dor e de prazer. O prazer tem sempre origem em algo exterior a si, enquanto que a alegria nasce dentro de si. A mesma coisa que lhe dá prazer hoje provocar-lhe-á dor amanhã, ou então abandoná-lo-á, pelo que a sua ausência provocará dor. E aquilo a que muitas vezes chamamos amor poderá ser agradável e excitante durante algum tempo, mas é uma dependência viciante, uma condição extremamente precária que se pode transformar no seu contrário num abrir e fechar de olhos. Muitos relacionamentos de "amor", passada a euforia inicial, oscilam na realidade entre "amor" e ódio, atração e ataque.
O amor verdadeiro não faz sofrer. Como poderia? Não se transforma de repente em ódio, assim como a alegria verdadeira não se transforma em dor. Como já referi, antes mesmo de você ser iluminado – antes de se ter libertado da sua mente –, poderá ter vislumbres da alegria verdadeira, do amor verdadeiro e de uma paz interior profunda, calma, mas vibrante e viva. Estes são aspectos da sua verdadeira natureza, a qual é geralmente encoberta pela mente. Mesmo num relacionamento dependente "normal", poderá haver momentos em que sentirá a presença de alguma coisa mais genuína e mais incorruptível. Mas serão unicamente vislumbres, rapidamente encobertos de novo pela interferência da mente. Poder-lhe-á então parecer que você teve algo de muito valioso e o perdeu, ou então a sua mente poderá convencê-lo de que, de qualquer modo, tudo isso não passou de uma ilusão. A verdade é que não foi nenhuma ilusão, e você não o pode perder. Faz parte do seu estado natural, que poderá ser encoberto, mas nunca destruído pela mente. Tal com um céu carregado de nuvens, o Sol não desaparece. Continua lá, por trás das nuvens.

Diz Buda que a dor ou o sofrimento nasce do desejo ou ânsia de possuir e que para nos libertarmos da dor devemos quebrar as cadeias do desejo.

Todas as ânsias de possuir são manifestações da mente que procura a salvação ou a satisfação em coisas exteriores e no futuro como substitutos para a alegria do Ser. Enquanto eu for a minha mente, eu sou essas ânsias, essas necessidades, esse querer, esses apegos e essas aversões, e separado deles não há "eu" excepto como mera possibilidade, como um potencial não satisfeito, como uma semente ainda por germinar. Nesse estado, até o meu desejo de ser livre ou iluminado não passa de mais uma ânsia a ser realizada ou completada no futuro. Portanto, não procure ver-se livre do desejo nem procure "alcançar" a iluminação. Torne-se presente. Esteja presente como observador da mente. Em vez de citar Buda, seja Buda, seja "o desperto", que é o que a palavra buda significa.
Os seres humanos vivem nas garras da dor há eternidades, desde que caíram do estado de graça entraram no reino do tempo e da mente e perderam o conhecimento do Ser. Nessa altura, começaram a ter a percepção de si próprios como fragmentos sem sentido num universo estranho, desligados da Fonte e uns dos outros.
A dor é inevitável enquanto você se identificar com a sua mente, ou seja, enquanto estiver inconsciente, espiritualmente falando. Refiro-me aqui basicamente à dor emocional, a qual é também causa principal das dores e das doenças físicas. Ressentimento, ódio, autocomiseração, remorso, ira, depressão, inveja e coisas semelhantes, e até mesmo a mais pequena irritação, são formas de dor. E todos os prazeres ou todos os pontos altos emocionais contêm dentro de si a semente da dor: o seu oposto inseparável que se manifestará a seu tempo.
Qualquer pessoa que já se tenha drogado para ficar "bem" sabe que o bem acaba por se tornar mal, que o prazer se transforma numa certa forma de dor. Muitas pessoas também sabem, por experiência própria, quão fácil e rapidamente uma relação íntima se pode transformar, de uma fonte de prazer, numa fonte de dor. Vistas de uma perspectiva mais ampla, ambas as polaridades, positiva e negativa, são faces da mesma moeda, fazem parte da dor subjacente que é inseparável do estado egoico de consciência identificada com a mente.


Capítulo do livro "O PODER DO AGORA" - de Eckhart Tolle
Guia para o crescimento espiritual







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