A tradição católica celebra a Paixão, Morte e a ressurreição de Jesus Cristo, em cerimoniais litúrgicos que em data definida no calendário católico, conhecida como Semana Santa.
O domingo de páscoa, na tradição católica, é, portanto, dedicado à celebração da ressurreição de Jesus, e, especialmente, da vitória da vida sobre a morte.
A páscoa judaica, por outro lado, é uma das datas religiosas mais importantes para os judeus, porque comemora-se a vitória da liberdade sobre a escravidão dos hebreus pelos egípcios, que durou cerca de quatrocentos anos.
Os últimos dias de Jesus na Terra ocorreram durante as comemorações da páscoa judaica.
Jerusalém era uma cidade santa para o povo judeu, porque lá estava edificada a sinagoga maior, o templo de Salomão, onde as comemorações religiosas eram realizadas. Por isso, naqueles dias, a cidade ficava repleta de peregrinos. O povo, em romaria, partia de toda a Palestina rumo a Jerusalém, para as festividades da páscoa que duravam oito dias.
No entanto, naqueles dias, Jesus, que era judeu, estava ausente de Jerusalém. Havia se dirigido com seus discípulos para Betsaida, a fim de atender ao chamado de amigos muito queridos ao seu coração, Marta e Maria, as irmãs de Lázaro.
As irmãs imploravam a presença de Jesus para salvar Lázaro, que estava muito doente (João 11, 1-3). Jesus vai para Betsaida, mas quando chega na cidade Lazaro já estava no sepulcro há quatro dias, cheirando mal, inclusive (João 11, 39).
Jesus, então, diante dos olhares de expressivo número de testemunhas, vai ao sepulcro e ordena: Lázaro, sai para fora! (João 11, 43). Foi o mais notável milagre realizado por Jesus. As pessoas ficaram perplexas e maravilhadas. Nunca houve alguém na história que fizesse algo parecido. O fenômeno se espalhou rapidamente pela Palestina inteira. Muitas pessoas viajaram para Betsaida a fim de conferir os fatos, deparando-se com a mais extraordinária realidade. Lazaro estava vivo!
Jesus retorna para Jerusalém. A cidade estava repleta de pessoas para as comemorações da Páscoa. Ao tomar conhecimento que Jesus estava se dirigindo à Jerusalém (João 12,12), o povo, em êxtase, entoando hinos e salmos, atira ramos de palmeiras ao chão para fazer um tapete verde para homenagear a passagem do rei.
Depois do milagre da ressurreição de Lázaro, o povo não tinha mais dúvidas, Jesus era o rei, o Messias esperado que vinha libertar os judeus do jugo romano.
Jesus adentra a cidade, não à moda da época, quando os reis, depois de vencerem as guerras, entravam na cidade em triunfo, montando cavalos e corcéis, os mais belos. Jesus, o Príncipe da Paz, adentra a cidade montado em um jumento, porque a sua vitória é sobre o mundo e o seu reino é de amor e paz.
Os fariseus haviam decidido que Jesus deveria morrer (João 11, 53 - 57), mas não ousaram prendê-lo diante do povo em euforia. Era preciso pegá-lo a sós. Jesus não fugia dos fariseus, sabia que era chegada a sua hora de partir (João 11, 1). No entanto, o Mestre desejava ardentemente celebrar a última ceia da páscoa com seus discípulos (Lucas 22,11), e, por isso, precisava de um lugar seguro para se reunir com eles, longe da mira farisaica.
Jesus envia, então, Pedro e João, às portas da cidade para encontrar um homem carregando um cântaro, o qual os levaria até sua casa, onde celebrariam a última ceia. O homem do cântaro, um desconhecido, cujo nome e origem não foi registrado nos evangelhos, ofereceu a sua casa para que Jesus, com seus discípulos, celebrassem a última ceia (Lucas 22, 8-13).
A última ceia, a ceia da páscoa, nos deixou muitos ensinamentos. A narrativa daquele momento, nos quatro evangelhos, é rica de conteúdo espiritual, não nos permitindo enumerar todos os pontos sem cansar o leitor.
Por isso, selecionamos três tópicos para uma reflexão breve.
1- Foi na última ceia que Jesus anunciou a vinda do consolador prometido, a doutrina espírita. João 14:15-26:
Se me amais, guardai os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; João 14,15. Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito. João 14, 26.
A doutrina espírita não foi elaborada pelos homens do mundo, mas revelada ao mundo pelas vozes do céu, sendo Allan Kardec apenas o instrumento que Jesus escolheu para codificar os ensinamentos que vieram do além. Assim como Moises recebeu dos céus os dez mandamentos, Allan Kardec, utilizando-se de vários médiuns, recebeu das esferas sublimes a doutrina espírita, cumprindo-lhe apenas sistematizar e codificar os conteúdos transmitidos pelos espíritos.
O espiritismo é a concretização da promessa de Jesus naquela última ceia, porquanto, depois de Jesus, nenhuma outra escola religiosa ou filosófica aportou à Terra vindo do Céus.
O espiritismo revive os ensinamentos do Cristo, trazendo a chave para a interpretação de inúmeros textos aparentemente incógnitos, pois que naquela época o mundo não estava pronto para compreender todo os ensinamentos ministrados pelo Senhor.
Foi preciso que a humanidade avançasse em conhecimentos filosóficos e científicos para penetrar nos conteúdos profundos ensinados pelo Cristo, bem como nos temas tratados pelas cinco obras que integram a doutrina espírita: o Livro dos Espíritos, na Gênese, no Livro dos Médiuns, No Céu e o Inferno e no Evangelho Segundo o Espiritismo.
2- Foi também naquela última ceia que Jesus apontou as duas maiores virtudes que a humanidade deve desenvolver, as quais, conjugadas nos verbos amar e servir habilita o ser humano a candidatar-se à angelitude.
O amor verdadeiro é a expressão de todas as demais virtudes. Quem ama, perdoa sempre. Quem ama é paciente, é tolerante, é misericordioso, é manso, é pacífico e pacificador etc.
O apóstolo Paulo ao falar do amor aos Corintos, na primeira carta, o fez de forma tão bela e tão profunda, que sua mensagem foi cantada em versos e se espalhou pelo mundo. “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como um bronze que ressoa ou como o prato que retine. Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor, nada serei. Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá.
Jesus diz aos discípulos, naquela última ceia, amai-vos. Amai-vos uns aos outros, não como se ama a si mesmo; amai-vos mais, amai-vos como eu vos amei, porque os meus discípulos serão conhecidos por muito amarem. João 13, 34.
Discípulo de Jesus é reconhecido pela capacidade de amar os outros seres do mundo, tal como estão.
Deus ama todas as criaturas. Ama igualmente o verme e o anjo. Deus ama incondicionalmente o algoz e a vítima. O livro Paulo e Estevão, de Emmanuel, psicografia Chico Xavier, na última página, após o desencarne do apóstolo Paulo, Jesus juntamente com Estevão vai receber o espírito de Paulo, dizendo-lhe que é da vontade do Pai que os verdugos e os mártires se reúnam, para sempre, no seu reino. O amor é a maior conquista da criatura humana, necessário à ascensão à angelitude.
No entanto, o amor é verbo que não se conjuga sozinho. Quem ama serve.
Quando Jesus anuncia, naquela última ceia, a sua partida e a chegada do Reino de Deus, os discípulos começaram a disputar quem seria o maior no Reino. A cena foi descrita por Lucas 22,24-27, e Jesus disse-lhes que o maior no Reino de Deus será sempre aquele que mais serve, que mais trabalha, que auxilia a todos sem reclamar.
Amar e servir são os dois verbos que quanto antes aprendermos a conjugar, mais felizes seremos e mais saúde teremos.
3- Foi também naquela última ceia que Jesus anunciou a traição de Judas e a negação de Pedro, episódios que merecem muita reflexão, porque apontam dois arquétipos, dois padrões psíquicos universais, comuns a condição humana.
Ao anunciar perante aquela assembleia a negação e a traição, Jesus utilizava-se de métodos terapêuticos para levar, Pedro e Judas, a introspecção. É que ambos, durante toda a ceia, em suas falas e em suas ações, projetavam sombras internas, conteúdos desconhecidos do inconsciente que precisavam vir à luz pelo processo de autoconhecimento, a que estavam sendo convidados pelo Cristo.
Advertido Pedro, o diálogo com Judas foi mais profundo. Jesus captava as emanações perturbadoras da atmosfera psíquica de Judas e procurou socorrê-lo, assim como faz um professor que facilita o processo de conhecimento do aprendiz.
Jesus procura facilitar a Judas o processo do despertar, para que o discípulo aproveitasse os últimos momentos com Jesus e despertasse da letargia com que se conduzia no mundo.
Depois de anunciar que seria traído e que o traidor seria aquele a quem desse um pedaço de pão, todos acompanharam o movimento de Jesus para Judas (João 13,26). Todos ouviram quando o Mestre disse a Judas: Faça logo o que você tem que fazer (João 13,27). Judas levantou-se e foi negociar com os fariseus a entrega de Jesus. Era para Judas fazer isso? Era isso que Jesus pretendia de Judas? Foi para isso que Judas veio ao mundo?
É óbvio que não. A frase dita por Jesus objetivou o despertar de Judas, com o fim de lembrá-lo de sua missão na Terra. Ninguém tem como missão cometer crimes, cometer erros, cometer equívocos. Todos nós temos como missão vencer a nós mesmos. Vencer os hábitos e costumes equivocados que adquirimos nas encarnações transatas.
Judas estava totalmente conectado com as ilusões do mundo material. Ele queria Jesus no poder do mundo. Ele estava certo de que ao entregar Jesus ao Sinédrio haveria uma guerra civil, e sairiam vencedores, pois, poucas horas antes a multidão em Jerusalém aclamou Jesus rei dos judeus (João 12,13).
Jesus faz a leitura da intimidade de Judas e busca despertá-lo, porque Judas, assim como todos nós, tinha como missão mudar a forma de olhar o mundo e olhar para si mesmo.
Judas viveu ao lado de Jesus durante todo seu ministério de amor. Recebeu o melhor alimento espiritual diretamente da mais pura fonte e, alimentado o espírito, chegava o momento de realizar a tarefa que lhe foi destinada.
Assim, somos nós. Estamos recebendo alimento espiritual da fonte espírita há quanto tempo? Há quanto tempo nos alimentamos do amor que extraímos das lições do Cristo? Para nós também já é chegada a hora de fazermos depressa o que viemos fazer no mundo.
Há uma frase que diz que os dias mais importantes de toda nossa vida são dois; o dia em que nascemos e o dia em que descobrimos o porquê nascemos.
Sabemos que estamos no mundo para nos tornarmos melhores, objetivo que somente será alcançado mediante o autoconhecimento, permitindo-se que as mudanças ocorreram, tendo sempre Jesus como referência, modelo e guia.
Soa para todos nós o momento de fazermos esse trabalho depressa, abandonando as ilusões do mundo a fim de nos movimentarmos para dentro, pois já gastamos muito tempo e muita energia na conquista de coisas que o tempo irá consumir. É só uma questão de tempo!
Se, tal como Judas, continuarmos orbitando ilusões, iremos, igualmente, trair Jesus pela inércia. A inércia constitui traição daquele que não se movimenta para o trabalho de transformação moral, porque foi para realizar esse trabalho que viemos ao mundo. Se não fizermos depressa o que viemos fazer no mundo a oportunidade passa, a encarnação passa, e encerraremos nossa jornada com a sensação de que falhamos, de que traímos nosso planejamento encantatório e, ainda mais triste, de que traímos Jesus.
Quando perguntaram a Chico Xavier qual era a maior a dificuldade que os espíritos enfrentam após a morte, respondeu a maior antena psíquica que o mundo já conheceu: A questão mais aflitiva para o espírito no Além é a consciência do tempo perdido.