Título: UMA REFLEXÃO SOBRE O "ÓCIO" (Leitura do dia 13/03)
Somos a civilização do tédio.
Temos cara de paisagem. Não há mais vontade, porque nós somos uma civilização exposta a muita informação, e isso diminui a capacidade de aproveitá-la.
Mas há um mistério: o mesmo jovem que não aguenta 10 minutos de exposição, é capaz de ficar no jogo do tablet durante três horas seguidas, ou seja esse é um desafio para as escolas. O desafio de integrar o jogo e a educação porque este jovem é capaz de foco mas não foco onde eu acho que ele deveria ter foco.
O cérebro humano tem um probleminha de formatação. Eu posso fazer duas coisas ao mesmo tempo, pois o cérebro comporta isso, mas a energia do foco será a mesma, então eu vou dividi-la ao meio: 50, 50. Eu posso fazer quatro coisas ao mesmo tempo, mas lá vai 25 para cada uma. Então eu posso atender o celular, digitar no computador, comer algo, escutar música e andar na esteira. O cérebro humano consegue isso, mas cada uma dessas atividades terá uma quantidade de atenção muito pequena e uma quantidade de prazer muito pequena, porque não há foco.
Os budistas acham a distração um dos cinco venenos da alma. E a nossa sociedade é a sociedade da distração. Tudo ao mesmo tempo aqui e agora. E nós aumentamos a exigência cada vez mais de trabalho e também necessitamos acumular muito mais do que no passado. O trabalho se tornou tão importante que é um suicídio ético aceitável. Eu posso dizer “eu estou me matando de trabalhar” que todo mundo aprova. Se eu dissesse “estou me matando de beber”, “estou me matando com crack”, ninguém acharia isso tão interessante.
O vazio incomoda as pessoas. Quando estão no ônibus, no elevador ou no carro, elas acham que tem o que fazer digitando. E tendo o que fazer digitando, elas se sentem importantes, elas se sentem alguém, se sentem inseridas em alguma coisa.
Sem o ócio não existe nem felicidade, nem criação. Ócio não é ligar a televisão e ficar vendo. Isso não é ócio, isso é tédio.
Ócio é a capacidade de deixar a cabeça fluir sem uma atividade fixa. É a capacidade de escutar uma música e conseguir viajar com essa música. Ócio é a capacidade de focar num ponto mental, sem estar fazendo outras coisas. Ócio não é passar o tempo. Ócio é dar ao cérebro um tempo para que ele possa produzir.
E com essa super exposição de atividades, responder mensagens, ver coisas, ninguém tem um minuto para absolutamente nada.
O ócio criativo é a capacidade de dizer para as ferramentas quem manda nelas. Não é um problema ter rede social. O problema é quem usa. Nenhuma ferramenta é um problema. Depende de como você é utiliza. Computador é uma maravilha. O problema está na falta de equilíbrio do uso.
Quais são minhas prioridades?
O que é que realmente eu quero?
O que é importante para mim?
O erro está no desequilíbrio. O erro está na falta de capacidade de medir.
Eu daria alguns conselhos:
Nunca celular na refeição familiar. Nunca celular durante um momento íntimo do casal. Nunca que a tecnologia supere a minha capacidade de comunicação. Nunca deixar de lado a comunicação olho no olho, especialmente entre pais e filhos. Nunca substituir a experiência humana pela máquina.
Ser senhor de si.
E se, fazendo isso, eu for feliz, essa pode ser a tal da tão sonhada felicidade.
Texto adaptado do vídeo https://www.youtube.com/watch?v=MuL5BuuKfQU (Leandro Karnal)
Associação do Movimento Espiritualista Morimbatá - AMEM